domingo, 24 de abril de 2011

Meditação e Karma Yoga

Meditação e karma yoga
Já escrevemos em outro artigo sobre a importância de se desenvolver um agir desapegado.
Karma Yoga ou Yoga da ação se contrapõe à Gyana Yoga, que é a Yoga do conhecimento. Cada qual se coaduna com dois tipos distintos de pessoas: Karma Yoga para o homem de família e Gyana Yoga para o recluso. Entretanto, ambos devem alternar dois períodos de meditação (um pela manhã e outro à tarde) com a atividade normal durante o resto do dia. Dessa forma, torna-se possível uma integração entre o estado mental meditativo e aquele fora dos momentos em que se está meditando.
Através dessa técnica e com o passar do tempo chega-se naturalmente à não-ação (desapego). É importante aqui considerar que não se chega à não-ação abstendo-se da ação, da mesma forma que não se atinge a perfeição através de mera renúncia. Isso não é possível e realmente não ocorre, porque o ego não tem o poder de produzir qualquer coisa.
A mera abstenção da ação somente tem o condão de produzir letargia e ociosidade e NÃO eleva espiritualmente a criatura.
Entretanto, devemos começar com alguns passos simples, ainda no domínio do ego e da compreensão racional. O primeiro deles é desenvolver disciplina ética. O caminho budista de libertação passa pelo desenvolvimento de seis perfeições e uma delas é a disciplina ética. A disciplina ética consiste na abstenção da prática de 10 não virtudes: 3 do corpo, 4 da fala e 3 da mente.
As do corpo são: matar, roubar e sexo inapropriado. As da fala são: mentira, fofoca, fala ríspida e fala divisiva. E as da mente são: cobiça, intenção perniciosa e percepções distorcidas. Aquele que aspira à própria evolução deve abster-se de praticar essas 10 não virtudes, ou seja, deve agir com disciplina ética.
Esse é o primeiro passo para interromper um fluxo kármico que nos desvia de qualquer progresso espiritual. Sem disciplina ética simplesmente não é possível trilar o caminho espiritual.
Mas não é só isso. Em seguida o homem deve agir de acordo com o dever (Karma Yoga ou Yoga da ação). Então Karma Yoga é a Yoga da ação. Mas não é qualquer ação. Devemos fazer aquilo que a vida num dado momento exige de nós. Às vezes nos perdemos justamente aí. Por exemplo, quando em vez de fazermos o que devemos fazer, acabamos indo por outro caminho, escolhendo aquilo que outras pessoas decidiram que seria melhor para nós. Seja no campo profissional, no cenário amoroso ou qualquer outro. E isso pode redundar em desastres existenciais de solução dificílima. Por exemplo, se somos pressionados a assumir uma tarefa para a qual não estamos preparados, mas cedemos. Às vezes podemos levar décadas para nos recuperar de um falha de julgamento ou de uma fraqueza de propósito como essa.
Também podemos nos desviar fazendo uma tarefa que não nos compete. Ou seja, devemos estabelecer limites para o que nos cabe fazer no mundo. Esse é o equívoco daqueles que não conseguem lidar com conflitos, não sabem dizer não. Querem agradar a qualquer custo. Precisam ser vistos como salvadores ou simplesmente não suportam a ideia de serem abandonados. Cada pessoa tem um dever próprio a ser cumprido e é justamente o cumprimento desse dever que a auxiliará a dar um salto quântico em termos evolutivos. Se fazemos o seu trabalho estamos bloqueando os meios que o universo criou para ajuda-lo(a) em sua evolução e essa pessoa pode perder uma oportunidade de crescer espiritualmente. Certamente isso não quer dizer que não podemos ajudar. Podemos e geralmente devemos. Mas não o tempo todo, não quando o outro pode encontrar em si mesmo os meios para realizar ele(a) mesmo(a) a tarefa que lhe compete.
Por fim, não devemos negligenciar os próprios deveres, mas cuidar que sejam executados com o máximo de dedicação e amor possível, sem expectativas de resultado. E isso é muito importante. Permitir-se o luxo de alimentar expectativas é apego. Isso não é Karma Yoga. Devemos agir ainda que da ação não advenha qualquer prazer ou satisfação pessoal, ainda que nossa ação nos cause dor e sofrimento. Por exemplo, quando decidimos nos afastar de alguém que em algum nível nos dá prazer, mas que é uma pessoa que vive de acordo com valores que são incompatíveis com nossas crenças mais profundas. Romper um relacionamento geralmente é algo difícil e doloroso, mas às vezes necessário. Isso é Karma Yoga. Dessa forma devemos estar sempre atentos à intenção que temos em cada ação nossa. Espiritualmente, isso é primordial.
A consciência de que as ações não são realmente nossas (apenas aparentamos ser seus agentes) é muito útil. Na verdade é o universo que age com suas próprias forças e é o poder do universo que se manifesta em cada ação. Somos tão somente instrumentos.
Por último, ressaltamos que que a ninguém cabe definir tais questões para nós. Somente através de autoanálise e de uma investigação íntima de nossa própria natureza e de nosso dharma é que poderemos defini-las NÓS MESMOS. Essa é uma tarefa que nos cabe.
Vamos encerrar o artigo com uma passagem do Bhagavad-Gita:
“Sabe também, ó Arjuna, que Eu aceito toda a oferenda que se Me faça com amor: seja, uma folha, uma flor, uma fruta ou apenas gotas de água. Eu não olho o valor da oferenda, mas olho o coração de quem a faz”

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