Existem algumas ideias que constituem verdadeiros empecilhos para quem inicia qualquer jornada, isso em qualquer área do conhecimento ou da vida. Frequentemente, quem busca um caminho espiritual alimenta a esperança de se tornar imune ao sofrimento, de adquirir certos “poderes” a fim de alcançar seus objetivos na vida (geralmente materiais) ou simplesmente interromper um sofrimento psíquico intenso e atual.
Seja qual for a razão, chegamos às portas da espiritualidade em busca de prazer e felicidade ou para escapar de algum processo doloroso. A maioria de nós, nessa experimentação de caminhos, que satisfaçam nossos anseios mais profundos chega ao espiritismo, ao cristianismo, à umbanda ou a alguma outra religião reconhecida.
Outros são atraídos para terapias alternativas por meio de promessas exageradas que quase sempre não se realizam. E há aqueles que chegam aos consultórios de psicologia, psiquiatria e psicanálise, já informados de que o processo de autoconhecimento não é mágico nem acontece de uma hora para outra.
Nesse artigo, vamos abordar o que podemos esperar como resultado da meditação, qual o tempo aproximado para que alguma mudança significativa aconteça e quais os maiores obstáculos que o meditante incipiente encontrará em seu caminho.
A seguir explicitamos alguns pensamentos aparentemente coerentes que podem ocorrer ao meditante que está iniciando:
a) não senti nada demais, será que estou fazendo certo?
b) Hoje minha mente estava tão inquieta que não consegui meditar. Ando tão preocupado e aflito com tal problema, que não vou nem tentar meditar. Seria uma perda de tempo.
c) Hoje minha prática foi divina. Uma pena que aquele estado de espírito não me acompanhe ao longo do dia. O meu caso deve ser grave.
d) Quando medito tenho uma avalanche de insights. Não consigo reter todos em minha memória (consciência), por mais que me esforce.
e) Meu marido (ou esposa) está me traindo. Não consigo pensar em outra coisa. Primeiro tenho que resolver isso, depois volto a meditar.
f) Sou muito ansioso(a) ou deprimido(a). Quando paro para meditar, parece que minha dor emocional aumenta. Não consigo aguentar.
Vamos iniciar nosso esclarecimento com o primeiro item, o item “a”. Em primeiro lugar a meditação é um processo em si mesmo. Durante a meditação, não se deve procurar alcançar nenhum estado de espírito (pré) determinado. Isso não é meditar. Na meditação ou repetimos mentalmente um mantra que NÃO TENHA SENTIDO para nós, ou seja, um som que não possa ser associado com qualquer significado, ou procuramos focalizar nossa atenção (consciência) em nossa respiração COMO MEROS OBSERVADORES, ou seja, sem tentar acelerar ou retardar seu próprio ritmo. Certamente existem outras técnicas, essas duas são meramente exemplificativas.
Isso, por si só é meditar. Não é necessário chegar a qualquer estado de espírito específico, não é necessária uma experiência transcendental impressionante, não é necessário levitar ou atingir qualquer objetivo imediato. Meditação é um ato de entrega sem expectativas, é ajoelhar-se diante do Criador e se entregar totalmente.
O item “b” está diretamente ligado ao item a. Quando passamos por alguma dificuldade ou problema sério, que é inerente à própria vida, é natural que nossa mente fique mais inquieta e arredia. Isso NÃO constitui obstáculo à prática da meditação. Certamente estaremos mais aflitos e nossa mente – de forma poderosa – insistirá em PERSEGUIR uma solução para o problema. Os pensamentos dificilmente cessarão e focalizar a atenção no mantra ou na respiração será bem mais difícil. Mas devemos ser compreensivos com nós mesmos, aceitar o que estamos passando e a própria indisciplina mental, tentando abandonar a sedução de correr atrás do próprio rabo, isto é, de dar atenção à sucessão de pensamentos que eclodem automaticamente em nossa consciência. Seguir o rastro dos próprios pensamentos somente nos afastará da solução que pretendemos alcançar. Lembrando que a meditação não tem qualquer objetivo imediato.
O item “c” é muito natural e deve ser esperado por qualquer meditante. Somente com a prática regular por um período prolongado (acima de dois anos) é que o meditante começa a experimentar estados alterados de consciência em sua vida cotidiana. A paz, a (auto) confiança, o equilíbrio e a harmonia mental e emocional são frutos que não serão colhidos antes de dois anos de prática regular.
O item “d” constitui uma armadilha muito comum. À medida que a mente se tranquiliza, surgem naturalmente insights, isto é, ideias novas e um possível entendimento de uma questão importante para nós. Não devemos perseguir esses pensamentos tampouco. São uma armadilha inerente ao próprio processo. Devemos continuar renunciando aos próprios pensamentos, ao nosso (suposto) poder mental e retornar suavemente o foco de nossa consciência para o mantra ou para a própria respiração, conforme o caso. Se não fizermos isso, perdemos de vista o processo meditativo. Isso não é meditar.
O item “e” é semelhante ao item “b”. Pode acontecer de estarmos passando por alguma questão extremamente difícil, de tal forma que nossa mente fique muito agitada. A diferença do item “e” para o item “b”, é que no item “e” o pensamento é obsessivo. Ele é repetitivo, recorrente. Não é aleatório, mas focalizado. Além disso, no item “e” existe uma carga emocional forte associada. Nesses casos é muito difícil abandoná-los (os pensamentos), mas devemos ser amorosos com nós mesmos e tentar renunciar a cada investida do processo mental obsessivo, retornando o foco de nossa atenção para o mantra ou para a respiração – o mais suavemente possível. Lembre-se de que a meditação não tem objetivos imediatos, no que diz respeito a alcançar esse ou aquele estado de consciência.
Por último, o item “f”. Há casos em que um forte desconforto emocional (causa inconsciente) dificulta muito o processo meditativo. Por quê? Porque quando paramos para meditar, ficamos de frente para nós mesmos.
Em vez de tentar alguma fuga (sexo, comer, ver televisão, conversar com alguém ao telefone, fazer algum esporte ou se envolver com alguma atividade que nos distraia de nós mesmos), estaremos nos deparando DIRETAMENTE com nossa própria casa mental. E isso pode ser muito desconfortável. Muito mesmo. Mas devemos confiar e persistir. O desconforto tende a diminuir com o tempo de meditação. Nesses casos é aconselhável aumentar o tempo de meditação para acima de 30 minutos. O desconforto passará e a mente se tranquilizará, invariavelmente. Entretanto, o sofrimento psíquico retornará em sua intensidade habitual depois de uma ou duas horas após a prática. Meditar não solucionará a dor psíquica de uma hora para outra. Como explicamos acima, para que a prática da meditação traga resultados duradouros para a vida do praticante, é necessária uma REGULARIDADE por um período superior a DOIS ANOS.
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